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A busca pelo equilíbrio entre vida pessoal e trabalho ganhou recentemente um nome, por meio de um movimento recente nas redes sociais: demissão silenciosa ou quiet quitting.

Trata-se de um grupo de profissionais que acreditam que o excesso de trabalho é prejudicial à saúde mental e que as pessoas precisam colocar limites ao tempo e à intensidade com que se dedicam ao trabalho para poderem ter tempo para viver suas vidas.

A expressão é uma novidade e ainda gera dúvidas quanto ao seu propósito, mas é fato que tem chamado a atenção de diversos profissionais pelo mundo.

Quer saber do que se trata o movimento e como ele pode impactar na relação entre colaborador e empresa? Neste artigo você verá:

O que é demissão silenciosa?

pessoa de roupa social com olhos fechados, pernas cruzadas e mãos sobre joelhos sentada em frente a notebook fechado simulando demissão silenciosa

A demissão silenciosa ou, em inglês, quiet quitting é um movimento que surgiu recentemente na internet e que, basicamente, envolve profissionais que buscam um equilíbrio entre a vida pessoal e o trabalho.

Apesar do nome sugerir, a demissão silenciosa não quer dizer que esses profissionais estejam fazendo um pedido de demissão, um acordo de demissão, por exemplo. 

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Na verdade, o propósito do movimento é fazer aquilo para o qual o profissional foi pago e nada além disso. É como se fosse uma contracultura àqueles funcionários que “vestem a camisa da empresa”.

Isso porque, na visão desses profissionais, as pessoas estão adoecendo e não conseguindo encontrar um limite para as horas dedicadas ao trabalho. Isso não tem permitido realizar atividades pessoais, descansar e conviver com amigos e família.

Assim, na prática, a proposta seria colocar limites bem definidos ao tempo dedicado ao trabalho de forma que, após esse período, o profissional se desligasse por completo, inclusive deixando de responder mensagens e ligações.

Outro ponto desse movimento é a ideia de não “se doar ao máximo” pela empresa, trabalhando exaustivamente pelo negócio, mas cumprindo apenas aquilo para o qual o profissional foi contratado e é pago.

Tem sido observado que essa tendência é mais forte entre jovens adultos millennials e da geração Z, que estão em busca de reescrever as regras no ambiente de trabalho. 

Assim, a demissão silenciosa mostra o grau de insatisfação geral desses profissionais com as oportunidades de emprego muitas vezes precárias, a insegurança, o excesso de trabalho, baixos salários e falta de valorização e reconhecimento.

Quando surgiu o movimento de quiet quitting?

Com a hashtag #QuietQuitting, o movimento da demissão silenciosa começou recentemente e ganhou força nas redes sociais, em vários países.

Ele surgiu mais especificamente no período pós-pandemia, com os fenômenos da síndrome de Burnout, a saída do presencial e mudança para o home office e o modelo de trabalho híbrido e outras realidades com as quais o mercado convive após o período de isolamento.

Especialmente com a migração para o home office, houve um aumento das horas dedicadas ao trabalho, em função do aumento das demandas, o que fez com que os profissionais não conseguissem estabelecer um limite entre trabalho e vida pessoal.

Outro aspecto que reforça o movimento pela demissão silenciosa são os diversos levantamentos que têm mostrado um aumento de demissões. No Brasil, não tem sido diferente. 

A Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro – Firjan realizou um estudo, com base em dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados – Caged, que mostrou que 2,9 milhões de trabalhadores brasileiros pediram para sair de seu emprego, entre janeiro e maio de 2022.

Trata-se do maior índice da série histórica, que começou em 2005.

Nos Estados Unidos, por exemplo, tem-se observado uma mudança de cultura em relação aos “viciados em trabalho”, popularmente conhecidos como workaholics.

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Assim, com essa realidade apresentada e devido à grande repercussão desse tema, o termo impulsionou debates principalmente no Twitter e no TikTok.

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Quais são as vantagens da demissão silenciosa? 

O conceito de demissão silenciosa é algo muito novo e, a princípio, pode gerar dúvidas, insegurança e até mesmo ser algo descartado por parecer que foge ao propósito profissional de entregas e trabalhos bem feitos.

Porém, não se pode ignorar essa nova perspectiva que demanda o equilíbrio entre trabalho e vida pessoal e o cuidado com a saúde e o bem-estar das pessoas. 

Por isso, é importante conhecer os pontos de vista que podem ser considerados benefícios no contexto da demissão silenciosa, entendendo como as empresas também podem encontrar vantagens nessa novidade.

Fortalece o propósito de trabalho por parte do colaborador

Durante muitos anos, trabalhar em excesso foi visto como algo positivo e que conferia prestígio ao profissional. Sair de casa muito cedo e retornar tarde da noite, em função do trabalho, foi visto por muito tempo como algo que dignificava a existência humana.

Com o passar dos anos e com a busca pela qualidade de vida, o incentivo ao ato de aproveitar a vida e curtir com amigos e famílias trouxe outra percepção para as pessoas, que passaram a buscar mais equilíbrio entre vida pessoal e profissional.

Aqui, não se trata de deixar o trabalho de lado, já que é por meio do trabalho que as pessoas conseguem sobreviver, pagar contas e realizar seus desejos.

Com isso, os profissionais tornam-se mais conscientes sobre o papel de sua profissão e do trabalho em sua vida, o que melhora, inclusive, o engajamento que têm com sua missão dentro de uma empresa, por exemplo.

O fenômeno da demissão silenciosa fortalece essa percepção e chama para uma reflexão acerca do propósito do trabalho na vida das pessoas.

Melhora a saúde mental

Em 2019, a Organização Mundial da Saúde (OMS) reconheceu oficialmente o Burnout como um fenômeno ocupacional que provoca esgotamento, exaustão, cinismo, distanciamento mental do trabalho e piora no desempenho do profissional.

Essa síndrome é preocupante para os colaboradores, já que o excesso de trabalho pode ter impactos de longo prazo na saúde física, emocional e mental da pessoa.

E para empresas, a situação pode ser onerosa e gerar diversos desafios, como altos índices de dispensa por saúde mental. Muitos profissionais acabam se ausentando do trabalho ou até mesmo não rendendo o tanto que a equipe necessita. 

Nesse contexto, a demissão silenciosa pode gerar um equilíbrio saudável entre trabalho e vida pessoal, evitando que casos de Burnout aconteçam.

Torna as relações de trabalho mais interessantes

Empresas que demonstram se preocupar com o bem-estar de seus funcionários e mostram respeito pelo indivíduo tendem a construir uma relação de proximidade com os profissionais, melhorando a rotina de trabalho.

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Diversos estudos já apontam que funcionários que se sentem respeitados e têm seu lado humano valorizado sentem-se mais motivados e, consequentemente, apresentam bons resultados para a empresa.

As relações de trabalho podem se tornar mais interessantes com o fenômeno da demissão silenciosa, favorecendo um clima organizacional de respeito mútuo e valorização. 

Outro aspecto positivo nesse contexto é o estabelecimento de limites nessas relações, algo que pode ser construído por meio do diálogo e do entendimento do papel de ambas as partes. 

Aumenta a produtividade

Outra vantagem do fenômeno da demissão silenciosa é o fato de que essa perspectiva favorece o foco dos funcionários em cumprirem suas obrigações naquele tempo, sabendo que depois poderão desfrutar de descanso do trabalho.

Essa ideia fortalece o senso de responsabilidade e pode impactar diretamente no aspecto produtividade, que não diz respeito necessariamente ao tempo que o funcionário dedica-se ao trabalho, mas ao quanto ele produz em um determinado período.

A perspectiva de se poder dedicar uma parte do dia ao trabalho e outra ao descanso e afazeres pessoais reforça o compromisso que o profissional tem com a empresa naquele período, sabendo que precisa realizar entregas durante o tempo que estiver trabalhando. 

Quais os perigos da demissão silenciosa?

Assim como há vantagens e pontos positivos que podem ser apontados na nova tendência do quiet quitting, é importante que as empresas e os próprios colaboradores avaliem também os riscos da novidade.

Não há dúvidas de que esse movimento que busca um equilíbrio entre o trabalho e a vida pessoal é legítimo, principalmente considerando como o excesso de trabalho pode afetar bastante a saúde mental, fato que é prejudicial também para a empresa.

No entanto, é preciso avaliar os limites que devem ser colocados nesse contexto, para que a tendência não fuja do seu propósito, trazendo consequências negativas para empresas e funcionários. 

Veja alguns exemplos do que pode ocorrer, caso a evolução não seja conduzida de forma profissional:

  • A demissão silenciosa se torne uma desculpa para que os funcionários não se dediquem ao seu trabalho, deixando de cumprir suas obrigações contratuais;
  • Em uma situação atípica, como de crise, que demanda uma maior dedicação ao trabalho e disponibilidade de tempo, a empresa não possa contar com seu capital humano;
  • Colaborador e empresa não consigam dialogar sobre situações do trabalho, não sendo possível que se estabeleça um consenso sobre as decisões do dia a dia; 
  • A empresa comece a realizar grande volumes de demissões, o que pode elevar a taxa de turnover, algo negativo para a organização;
  • Por ser algo novo e ainda desconhecido por muitas empresas, as organizações não saibam lidar com o movimento e comecem a impor regras mais rígidas e exigências, indo na contramão das demandas atuais.

Esses são alguns exemplos que podem ser citados dos perigos do surgimento da demissão silenciosa, que ainda é um assunto desconhecido para muitas empresas e profissionais. 

A dica, para evitar que essas situações se concretizem, é se informar sobre o tema e buscar uma reflexão de como o movimento pode ser benéfico para ambas as partes.

O que a lei diz sobre o quiet quitting?

Mesmo sendo uma novidade, é preciso avaliar o que diz a legislação trabalhista e quais são as consequências jurídicas desse fenômeno, que dependem da situação ocorrida, podendo variar caso a caso.

De acordo com a Consolidação das Leis Trabalhistas – CLT, no artigo 482, existem hipóteses de demissão por justa causa, também conhecida por desídia, que estão relacionadas à negligência do trabalhador no cumprimento das atividades profissionais. 

Na prática, trata-se do desleixo ou desinteresse, por parte do colaborador, referente à prestação de seus serviços, com um excesso de faltas não intencionais cometidas por ele.

Caso essas faltas sejam intencionais, o contrato poderá ser encerrado considerando outras situações legais, como mau procedimento ou insubordinação.

Quando se trata da demissão silenciosa, a empresa precisa avaliar a situação com cuidado, levando em consideração o histórico profissional do funcionário e também qual é a gravidade de sua conduta.

Assim, caso o trabalhador deixe de cumprir suas tarefas com a performance esperada pela empresa ou haja prática de faltas, que já tenham sido apontadas pela empresa, tudo isso com o intuito de provocar uma dispensa sem justa causa, ele poderá ser dispensado por justa causa, com redução de suas verbas rescisórias.

Porém, a simples queda na performance do empregado, desde que cumpridas as obrigações contratuais, não configura justa causa.

Há ainda na CLT, especificamente no artigo 483, a rescisão indireta, também conhecida por “justa causa do empregador”.

Nessa situação, o contrato é encerrado a partir do descumprimento contratual ou falta por parte do empregador.

Assim, o empregado tem direito às mesmas verbas rescisórias que receberia em caso de dispensa sem justa causa.

Na situação da demissão silenciosa, a rescisão indireta do contrato pode existir quando o empregador exigir do trabalhador situações, por exemplo, como o cumprimento de metas inatingíveis ou serviços que sejam superiores às forças do trabalhador, entre outros casos.

Essas situações também podem ser consideradas como assédio moral, tendo o funcionário direito a receber indenização por danos morais.

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O que a empresa pode fazer para lidar com casos de demissão silenciosa?

Principalmente por se tratar de um fenômeno novo, as empresas devem estar atentas a essa novidade, buscando compreender o que motiva os profissionais a irem em direção à demissão silenciosa.

Já se sabe que há uma procura cada vez maior pelo equilíbrio entre vida pessoal e trabalho e esse já é um ponto de partida para que as empresas avaliem a forma com que suas equipes funcionam e como estão suas demandas.

O setor de Recursos Humanos deve estudar o tema e buscar compreender como as empresas podem lidar com isso, sem que se vire as costas para o movimento.

O segundo aspecto tem a ver com uma autoavaliação acerca de como tem sido a estratégia de valorização do colaborador, incluindo questões como salário condizente com a função, benefícios, plano de cargos e salários.

Além, é claro, dos investimentos em bem-estar, saúde mental e as ações para que cada colaborador enxergue o seu propósito dentro da empresa.

Assim, a principal dica é que as organizações não ignorem o movimento, mas avaliem como a tendência poderá ser trazida para a prática e como pode ser benéfica para as empresas e colaboradores.

Conclusão

A demissão silenciosa é um fenômeno recente, mas que mostra como os profissionais estão enxergando a sua participação dentro das empresas. O propósito do trabalho, especialmente para os mais jovens, está mudando, o que merece a atenção das empresas

As empresas, em especial o setor de RH, devem sempre acompanhar esses movimentos, entendendo como se adaptar a eles. Além de incluírem também em seu propósito como organização a necessidade da valorização real do colaborador e a garantia do bem-estar das pessoas.

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